André Mantovanni

Fri Jan 20

Caio F. (Ciclo Seco, Pequenas Epifanias)

Todo mundo conhece ciclo seco, a maioria até já passou por ele. Alguns mesmo vivem desde sempre dentro dele, achando que isso é vida e eternizando o que, por ser ciclo, deveria também ser transitório. É preciso acreditar que passa, embora quando dentro dele seja difícil e quase impossível acreditar não só nisso, mas em qualquer outra coisa. Não que ciclo seco não tenha fé, o que acontece é que não podendo ver o que não é visível, fica limitado ao real.

Antes de ir em frente, é importante dizer que ciclo seco nada tem a ver com as estações do ano. É coisa de dentro do humano, não de fora, e justamente por isso não tem nenhum método: vem quando não é esperado e vai quando não se suspeita. Ciclo seco não desaba de repente sobre alguém; chega aos poucos, insidioso, lento. Quando se percebe que se instalou, geralmente é tarde demais. Já está ali. É preciso atravessá-lo como a um deserto, quando se está no meio e a água acabou. Por ser limitado ao real, o ciclo seco jamais considera a possibilidade de um oásis ou de uma caravana passando. Secamente, apenas vai em frente.

Porque o real do ciclo seco são ações, não pensamentos nem imaginações. Tanto que, visto de fora, não é visível nem identificável. Não se confunde com “depressão”, quando você deixa de fazer o que devia, ou com “euforia”, quando você faz em excesso o que não devia. Em ciclo seco faz-se exatamente o que se deve ou não, desde escovar os dentes de manhã ou beber um uísque à tardinha, mas sem prazer. Nem desprazer: em ciclo seco apenas se age, sem adjetivos. A propósito, ciclo seco não admite adjetivos — seco é apenas a maneira inexata de chamá-lo para que, dando-lhe um nome, didaticamente se possa falar nele.

E deve-se falar dele? Quero supor, entusiástico, que sim. Mas não tenho certeza se dar nome aos bois terá alguma serventia para o dono dos bois ou sequer para os próprios bois — e essa é uma reflexão típica de ciclo seco. Mas vamos dizer que sim, caso contrário paro de escrever já. E falando-se dele, diga-se ainda que ciclo seco não é bom nem mau, feio ou bonito, inteligente ou burro (…) embora possa dar uma impressão errada a quem o vê de fora, ávido por adjetivar.

Ciclo seco, por exemplo, não se interessa por nada. Pior que não ter o que dizer, ciclo seco não tem o que ouvir, compreende? Fica na mais completa indiferença seja ao terremoto no Japão ou à demissão de Vera Fischer. No plano pessoal, tanto faz ler ou não ler um livro, ir ou não ao cinema — ciclo seco é incapaz de se distrair, de se evadir. Fica voltado para dentro o tempo todo, atento a quê é um mistério, pois que pode um ciclo seco observar de si mesmo além da própria secura, se não há sequer temporais, ventanias, chuvaradas? Nesse sentido, ciclo seco é forte, porque nada vindo de fora o abala, e imutável, porque de dentro nada vem que o modifique.

E nesse sentido também é antinatural, pois tudo se transforma e ele não, simulando o eterno em sua digamos, i-na-ba-la-bi-li-da-de. E sendo assim, com alívio vou quase concluindo, pode se deduzir que… Não, não se pode deduzir nada. Só que passa, por ser ciclo, e por ser da natureza dos ciclos passar. Até lá, recomenda-se fazer modestamente o que se tem a fazer com o máximo de disciplina e ordem, sem querer novidades. Chatíssimo bem sei. Mas ciclo seco é assim mesmo.

Todo mundo tem os seus, é preciso paciência. E contemplá-lo distante como se se estivesse fora dele, e fazer de conta que não está ali para que, despeitado, vá-se logo embora e nos deixe em paz? Eu, francamente não sei. Ainda mais francamente, nem sequer sinto muito.

Mon Jan 16
Sun Jan 8
Fri Dec 30
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Para terminar  bem o ano com boas lembanças de amigos e familiares neste momento de celebração de 2009 registrado e editado por Jade Stickel, ao som de Motriz, minha canção predileta!

Thu Dec 22
Revista Élegant, do amigo Beto Ferreira!

Revista Élegant, do amigo Beto Ferreira!

Wed Dec 7

O Acontecer das Coisas - Livro de Contos

Não sabemos nunca se a gente volta a ser a mesma pessoa depois de uma grande pancada da vida. Esses abismos que se abrem à nossa frente e nos empurram para dentro deles sem que haja escolhas, muito menos salvação, são mistérios insondáveis.

De repente a luz se apaga. Fica tudo escuro. Quase cegos, vamos tateando a vida para compreender o que nos aconteceu ou encontrar no coração, na alma ou em alguém, um caminho mínimo, um norte a seguir e ter a redenção final. Muitas vezes conseguimos; outras não.

O Acontecer das Coisas percorre este labirinto, esta linha descontinua cheia de nós embaraçados que muitos chamam destino. Nossas sinas pessoais ora se mostram iluminadas e frescas, ora se revelam sombrias, mofadas e podres por dentro. Este livro conta contos.

Contos que falam de humanidade, de afeto, de amor, de saudade, de perda, de ilusão, de esperança, de sonho, de dor e de loucura – todas as personagens que podemos experimentar em nós na finitude do viver.

Sat Dec 3
Tzvetan Todorov

Tzvetan Todorov

Por que amo a Literatura…

Hoje, se me perguntam por que amo a literatura, a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é: porque ela me ajuda a viver. Não é mais o caso de pedir a ela, como ocorria na adolescência, que me preservasse das feridas que eu poderia sofrer nos encontros com pessoas reais; em lugar de excluir as experiências vividas, ela me faz descobrir mundos que se colocam em continuidade com essas experiências e me permite melhor compreendê-las. Não creio ser o único a vê-la assim. Mais densa e mais eloqüente que a  vida cotidiana, mas não radicalmente diferente, a literatura amplia o nosso universo, incita-nos a imaginar outras maneiras de concebê-lo e organizá-lo. Somos todos feitos do que os outros seres humanos nos dão: primeiro nossos pais, depois aqueles que nos cercam; a literatura abre ao infinito essa possibilidade de interação com os outros e, por isso, nos enriquece infinitamente. Ela nos proporciona sensações insubstituíveis que fazem o mundo real se tornar mais pleno de sentido e mais belo. Longe de ser um simples entretenimento, uma distração reservada às pessoas educadas, ela permite que cada um responda melhor à sua vocação de ser humano.
 
 
TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.

Thu Dec 1
Meu querido Prof. Dr. Fernando Segolin, mestre em minhas navegações na poesia! (Novembro/ 2011 - PUC - SP)

Meu querido Prof. Dr. Fernando Segolin, mestre em minhas navegações na poesia! (Novembro/ 2011 - PUC - SP)