André Mantovanni

Fri Oct 14

A Voz , ao som de “O ciume”, composição de Caetano Veloso, interpretada por Maria Bethânia

Sentimentos negros também deságuam rios afora.

Escorre dos olhos, derramando coração e alma, juntando aos  pés, a poça rasa e pegajosa de lama: poeira e lagrimas antigas.

Do sono escuro e cinzento despertou a noite vazia, perigosa e peregrina.

Acordou em si o céu tenebroso sem estrelas, sem lua, tempo ruim, sem Oyá, sem nenhum deus para pedir socorro.

No retrato de cacos de espelho, a imagem distorcida e nebulosa do ver, do ser.

Na moldura do desassossego a revelação da dor contínua, solitária e aflita.

A voz cantou a ardidura, nomeou o que não tinha nome.

Na penumbra  do que conseguia sofregamente ser, dentro do quarto fechado na cidade habitada por palácios de pedras vazias e frias, imaginava que perdera-se do mundo.

O disco repetia a mesma canção durante horas a fio para a maturação do jardim de narcisos que já davam sinais de brotarem por entre as mãos, os pés, os cabelos e por entre os olhos nus.

Constatou, o menino se fora para sempre.

O homem, velho de seu cansaço abstrato e cotidiano, sentara-se à sua espera como sombra de tempo.

Sofrer sem chorar o fazia misterioso, arredio e profundo; intempestivo para viver humanamente.

Suas estranhezas ficaram evidentes, estampadas como pano de chita representando a face, o gesto e o caminhar.

No silencio repentino que lhe roubava da vida ordinária e comum, transformava-se à seu modo em encantamento, só para si e mais ninguém.

As rachaduras estavam mais evidentes do que a cor do sorriso branco de artificialidade.

Das escolhas mal feitas, dos trajetos que não pensava percorrer, sobrou bem pouco, quase nada.

Só a vigília da insônia foi a ponte para a loucura triste dos desavisados.

Esteve sempre à espera do futuro, como anunciação de um mistério do porvir inalcançável, labiríntico e indecifrável.

Com o pouco de amor que sempre carregara nas mãos caminhou em direção ao mar.

Nunca mais voltou.

E se voltar um dia, estarei lhe esperando atento na transição de cada amanhecer alaranjado em praias desconhecidas e desertas.

A voz canta o ponto negro, decisivo para o destino que está escrito:

“Eu sou só eu…Só eu, só eu!”

 

Andre Mantovanni

São Paulo, 14/10/11 (madrugada)