Para Elias Andreato
Apesar de estar em novembro, uma noite fria caiu inesperadamente.
Ar seco rasgava levemente a face.
Carreguei meu coração ferido nas mãos.
Expectativa fundia-se com alegria quando chego a porta da Galeria Olido no centro de São Paulo para retirar meu convite e assistir Doido, o monólogo de um dos amigos mais importantes que nesses acasos inesperados, a vida nos surpreende com bons encontros.
Dias antes, num e-mail segredado, chorei minhas tristezas e inconformismos em uma crônica que escrevi desesperadamente para livrar-me de tantas angústias do viver, ser e existir e para não publicá-la, a enviei para poucos e Elias estava nesta seleta e rara lista de três ou quatro pessoas, não me recordo.
Sem muita demora, veio sua resposta simples, porém profunda.
No assunto do e-mail estava a palavra amigo e no corpo da mensagem ao invés de consolo e críticas, um poema lindíssimo sobre Maria Bethânia que ele havia recitado recentemente com ela no Rio de Janeiro. No final acrescentou o convite da apresentação de seu monólogo.
Amizade verdadeira brota assim, sem dizer muita coisa, mas em poucas linhas pode nos mostrar a beleza de um poema, a sutileza de uma canção, uma palavra de real significado que faz toda a diferença e que nos ampara de algum modo.
Para os amigos oferecemos o que temos de melhor. E este melhor pode ser o colo ou abrigo bem de perto ou de longe, não importa.
No caso de Elias, ele me deu naquele instante, espontaneamente o seu amor e a sua arte, nobreza dos generosos.
Compreendi com ele a velha e boa lição do padre Antônio Vieira que sempre me tocou: Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.
Elias é um poeta, mais do que ator, um artista em sua mais ampla soberania e esplendor que esta palavra possa presentificar. Um mestre que ensina aprendendo sem a pretensão boba dos arrogantes, partilha sem muita cerimônia, acolhe bem em seu coração pessoas tortas que por vezes perdem-se no caminho, como eu, por vezes me perco em labirintos.
Sentei-me propositalmente na primeira fila, ao centro do palco, queria ouvir, ver, sentir o Doido ou melhor, transbordar-me dele.
Terceiro sinal. As luzes se apagam e na escuridão do teatro surge Elias com sua presença amorosa trazendo aquele Doido com pequenos objetos, movimentos precisos, luzes delicadas e expressões de quem anunciava o rito das verdades necessárias.
Sua voz grave e dramática já nos emocionou numa invocação inicial de arrepiar a alma e acender todos os sentidos.
Dali em diante, Elias me deu muitas das respostas que procuro para expressar ou justificar minhas miserias mais intimas. O mundo ao meu redor parou durante aqueles quase sessenta minutos de espetáculo, sai de órbita, viajei doidamente com ele sem pressa de voltar .
Acho que ainda não voltei. Por escolha ou destino, prefiro não voltar.
Apesar do grande público, Elias falava para mim. Seu Doido declamando poesias, citando frases célebres e textos de grandes pensadores, pintores e filósofos estava sim, me ensinando de alguma forma, a re-viver e a re-ver-me.
Emocionado, ao fim do espetáculo fui abraçá-lo no camarim.
Como criança que se encanta com um presente há muito esperado não consegui dizer muito obrigado, estava fora de mim, tomado em poesia e encantado, fascinado com a ideia de que aquele homem nesse tempo tão ruim que todos atravessamos, pôde com delicadeza infinita tocar meu ser com rara luminosidade, talento e sensibilidade.
Afirmando inconsciente: sim, somos estranhos nesse mundo de lucidez.
Bravo, Elias!
Escrevo esta carta impregnado de gratidão.
Do sempre amigo,
Andre Mantovanni
02/11/2011