Poesia e sensibilidade desenham com delicadeza “O Palhaço”, filme de Selton Mello
Não há nada tão triste quando descobrimos que nossa identidade está posta em xeque, colocada a uma espécie de provação abismal.
Quando duvidamos de nós mesmos e percebemos que os traços desenhados até então, ainda não se definiram, mas apenas rascunharam com várias rasuras nosso destino pessoal ou o que desejamos dele, o escuro se instala.
Por vezes, fica difícil a decifração, anos de busca, perguntando aos amigos, ao psicanalista, aos astros e nem sempre as respostas são felizes ou quietantes, mas de algum modo, quando as alcançamos nos satisfazem razoavelmente, apaziguam e nos revelam uma foto mais colorida e menos desbotada do que verdadeiramente somos, isso são os ganhos preciosos do caminho.
Do cinema, só posso expressar minha opinião enquanto expectador e mesmo quando me debruço sobre a literatura não me preocupo com as regras ou a intelectualidade boba e arrogante dos que se escondem atrás dos títulos.
Quando escrevo, penso e falo sobre cinema, sou o outro apaixonado que a película procura para o encontro epifânico.
Na poesia, as metáforas e as comparações muito mais do que as rimas, buscam o desenho de uma imagem. O poeta escreve para produzir sensações que geram pedaços da vida em porta-retratos.
A palavra é seu instrumento de composição.
Na via contrária, o cinema encolhe, enxuga ou tenta na mesma medida do poeta transfigurar a voz da palavra, colocá-la em silêncio para gritar experiências do não dito por imagens e também sensações.
O palhaço traz olhares expressivos, mínimos gestos, fotografia encantadora, silêncios delicados e a emoção pulsante de cada ator/personagem que cumprem o mesmo papel da poesia – a busca desse outro que ao mesmo tempo está fora e dentro de nós.
Selton Mello e Paulo José realizam essa alquimia em O Palhaço e denunciam o ser em constante mutação na busca poética de uma identidade sofrida e até perdida em meio ao caos da sobrevivência.
Benjamim, protagonista de si mesmo vai se transformando aos poucos, sua referência é só uma velha certidão de nascimento e o circo cheio de personagens alegóricas que não o situa no mundo. Mas como lagarta que rompe o casulo pra criar asas e voar, vira borboleta, voa em céus diferentes e encontra sua real identidade, não só em uma repartição pública, mas na vida. .
Até para encontrar e se reencontrar antes é preciso negar.
Benjamim diz não ao seu ofício e o abandona com a mesma tristeza que paradoxalmente lhe acolhia e o expulsara do circo Esperança.
Tenta vestir outra máscara e muda o visual, abandona os sapatos coloridos, quer se desgarrar do talento que possui, mas diante do espelho, descobre que o que cabe perfeitamente em sua face é o seu bom e amigo nariz de palhaço herdado do pai.
A vida comum e cotidiana fora do circo o sufoca e nesse sentido nem a possibilidade do amor de um outro o salva, mas apenas o amor inocente que embala a fé dos corajosos que retornam de onde pararam.
Parece que Santa Filomena, a protetora dos artistas lhe dá por destino ou recompensa uma redenção depois de uma jornada angustiada, deprimida e solitária de Benjamim.
De qualquer forma, O Palhaço não apela para cenas de sexo, violência e afins, nem tão pouco é um dramalhão forçado, mas se mostra autônomo em sua mensagem com muita propriedade, sensibilidade e beleza.
Poesia pura, tocante e está nas telas de alma pra alma, sem restrições para quem quiser mergulhar.
Para os menos sensíveis, de certo sairão do cinema do mesmo jeito que entraram, achando o longa um pouco engraçado ou sem muita novidade.
Já para os verdadeiros viajantes da vida, buscadores de suas identidades sempre fragmentadas ou em estado de crise, uma experiência maior e itinerante. Sim. Porque mesmo com a tentativa (alcançada) de Selton, não saímos com respostas prontas, não encontramos solução, mas enxergamos uma espécie de prisão a que todos incondicionalmente estão fadados: o de ser o que se é, custe o que custar, retroceder, caminhar, parar e é claro, voltar.
Arte pela arte, duro embate de inquietação, traço marcante, brilhante e fundamental na obra de Selton Mello, que toca com tanta delicadeza e profundidade num tema tão desgastado e aparentemente comum quanto a frase de Pangaré no auge de sua descoberta interior diz: O gato toma leite, o rato come queijo e eu sou um palhaço!
Mas nesse sentido nada é simples e tudo se torna altamente necessário.
*André Mantovanni é escritor e apresentador de rádio e televisão. Mestrando em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP), é especializado em Estudos Literários e formado em Artes Visuais. Autor dos livros “Mar de Mim” e “O Acontecer das coisas” com Alice Betânia Miranda, ambos pela Ghemini Editora.