Conheço bem pouco o Rio de Janeiro, uma pena.
Mas ao mesmo tempo, andar pelas ruas estreitas, ser surpreendido com o cheiro de maresia é o mesmo que andar por casa conhecida quando ao som imaginário de uma canção, uma letra ou uma melodia de Tom Jobim, Vinicius de Moraes logo nos pega de surpresa e nos conduz, deixamos imediatamente de ser estrangeiro.
Hoje, ao retornar no entardecer vi da janela do avião, o sol iluminando o Cristo no alto do céu, cercado por águas, uma imensidão sem fim, belezuras dessas que nos fazem por instantes de contemplação poder amar mais o mundo, a vida, as pessoas.
Fora as obrigações do trabalho, a vida sem tempo que nos preenche com as chatices burocráticas do cotidiano, voltei com medo de adoecer por regressar e não ter o maravilhamento junto ao meu coração, sem poder ver Deus bem de pertinho, mais do que isso, desabrochá-lo profundamente em mim, no outro, como senti ao reencontrar Bethânia em meio ao seu Oásis.
Sempre pensei (ou pelo menos tentava pensar) que minha paixão por ela se encerrava no palco, na voz, na poesia professada, no timbre que sempre me invade sem pedir licença, atravessa, avassala e reconstrói meus eus.
Quando me despedi do breve, porém eterno encontro acolhido numa sombra fresca de árvore do tempo, sofri como quando a gente se despede de um amor que talvez não volte nunca mais ou pela dor de um adeus de algo, alguém que nos é raro e único e que nenhuma eternidade poderia esgotar a saudade… Bethânia me cala, me silencia e levo dias para processar o que dela recebo e que dela emana naturalmente.
Agora já noite, na solidão do meu quarto permito que algumas lágrimas acompanhem minhas mãos na escrita de uma espécie de carta anônima e lhe ouvindo, lembro cada gesto, cada palavra para não perder o sonho, a humanidade e todos os encantamentos que Bethânia me ofereceu fora do palco, longe das canções, mas dizendo e confessando em seu olhar que brilhava como seu sorriso, face das rainhas e iluminadas por algo que nunca se desvenda, fico entregue por sina que não se desfaz e que por certo continuará para todo o sempre.
Que seja assim, sem muito entendimento, mas à flor da pele, vivo, pulsante e reluzente essa experiência de amar sem qualquer esforço.
André Mantovanni
São Paulo, 27/03/2012