André Mantovanni

Tue Jun 21

A literatura melhora as pessoas?

Pode melhorar, sim. Pode desviar do vício, da loucura. Pode estancar a loucura através do sonho. Eu tenho um impulso, que talvez seja um umpulso cristão pelo próximo. Eu tenho vontade de servir ao próximo, verdadeiramente. E a literatura me proporciona isso.E o que eu faço, acredito, com o máximo de competência que me é possível e com amor, com paixão, acaba chegando, de algum modo, no outro.

Nunca vou esquecer de um jovem que ligou para mim, isso na década de 70, dizendo que estava lendo meus livros e, por causa deles, não queria mais se matar.

Eu perguntei: “o que eu posso fazer por você?” Ele respondeu: “A senhora já fez!”

E desligou o telefone. Nunca mais ligou, mas eu tenho certeza que ele está por aí, em algum lugar. Esse episódio me comove até hoje. Eu fico relendo às vezes meus textos, procurando, procurando, qual a palavra, meu Deus, qual a palavra que foi capaz daquilo?

Nunca vou saber. Mas essa certeza de que posso servir ao próximo, essa esperança, não vai desaparecer enquanto eu viver.

É uma forma de amor. Acho que é isso. No fundo a literatura é uma forma de amor.

(Trecho de uma entrevista com Lygia Fagundes Telles - Cadernos de Literatura Brasileira, Volume 5, Instituto Moreira Salles, São Paulo - Março, 1998)