André Mantovanni

Sat Jun 25

“O tempo como reflexão na poesia Retrato de Cecília Meireles ”

O poeta escreve para além do silêncio do papel. Sua busca é evocar a voz para tornar possível, o impossível.

A poesia coloca-nos a palavra como escritura, imagem de sensações, observações e sentimentos do homem e do mundo na tentativa de nos salvar, de nos dizer algo para o encontro de ser.

Poesia é por excelência um convite ao infinito universo das experimentações, da fusão, da transcendência e a desocultação da vida sem mesmo revelar-se, pois a palavra enquanto verso é uma ferida aberta sempre em erupção, corpo presença, corpo vivo, transformação e metamorfose contínua.

Aos poetas destina-se o ofício de tecer, bordar artesanalmente a palavra colocando-a sempre à disposição do canto, da dança e de todos os movimentos possíveis da vida, inclusive da desordem, do desassossego e do desequilíbrio capazes de gerar a ebulição interior.

Poesia é a possibilidade de encontro: do outro que se reflete no eu e vice-versa, espelho do imaginário, reflexo do que um dia poderá vir a ser – a eterna promessa que acena, mas que não se cumpre e nesse sentido a poesia torna-se passagem, trajeto, caminho, portanto, pode ou não ter um ponto de partida, mas, nunca uma chegada definitiva.

Poesia também fala de tempo, mesmo sendo atemporal e alcançando, pertencendo ao Cosmos - anunciando por vezes o sagrado que há em nós ou a mais obscura humanidade de nossa finitude.

Cecília Meireles, em Retrato parece nos levar a uma viagem de reflexão do tempo.  Serve-se da metáfora do tempo cronológico, mas acima de tudo do tempo que não temos dimensão, controle, o tempo da metamorfose, o tempo do viver com suas profanidades e sacralidades, felicidade e desespero.

Talvez um tempo do amadurecimento no qual o espelho do mundo real anuncia com surpresa derradeira o tempo-caminho passar por nossa alma, nossa face e nosso coração. Aquele tempo responsável pelas mudanças que desabrocham ou definham nosso olhar dando-nos a certeza de que viver é um abrir e fechar os olhos, o tempo curto, de um instante entre o nascer, crescer, envelhecer e morrer.

Mas Cecília coloca nos seus versos finais, um fio de esperança ao se indagar em qual espelho ficou perdida a sua face, talvez, com a expectativa de que apesar de todas as transfigurações, a busca continuará com seus mistérios e indagações.

Esses versos nos levam a descobrir em qual imagem ou em qual retrato ficou registrada a experiência da dor de ser e de sentir e que ao mesmo tempo não pode ser aprisionada e por isso outros espelhos terão de ser confrontados, revistos proporcionando a experiência do olhar, do tempo, da reflexão e do alcance do que pode parecer impossível: voltar no tempo, e quem sabe, no tempo do arrependimento que nunca será possível.

Não há resignação, mas um questionamento que resignifica o viver desse ser que não viu o tempo passar enquanto experenciava o próprio tempo, a redenção.

O retrato é a consciência que desperta para a grande e simples revelação do acontecimento: o tempo.

Quanto ao ato de viver a poesia, Freud, como profeta da palavra nos revela: “Seja qual for o caminho que eu escolher, um poeta já passou por ele antes de mim.”

André Mantovanni